Ontem à tarde, eu esperando o busão. Lá vem ele, faço sinal e subo.

Do meu lugar percebo que o motorista, um garotão com cabelos alourados de reflexo (ai!), pega o celular e inicia um papo muito animado com seu interlocutor.

Vai falando enquanto dirige com uma só mão no trânsito pesado.  Uns cinco ou dez minutos depois, se despede e imediatamente faz nova ligação. O papo animado continua. E o trânsito também.

Dentro do ônibus ninguém, eu disse NINGUÉM se manifestou. Resolvi ficar calada para minha própria segurança, pois percebi que não teria apoio. Mas anotei o número do veículo e o horário.

Chegando em casa procuro na internet o telefone da empresa. Ligo e falo que gostaria de fazer uma reclamação. Se eu pensava que estava tudo fora da realidade, foi aí que eu tive a certeza:

– Por favor, eu gostaria de fazer uma reclamação.

Um momento.

(Alguns segundos ouvindo Für Elise depois…)

Pois não…

– Eu gostaria de registrar uma reclamação contra o motorista do veículo número tal, na Rua Tal, no horário tal que dirigiu o tempo todo falando ao celular.

Ahn, sim…  E daí?

– E DAÍ???  E daí que isso é proibido pelo Código Nacional de Trânsito.    E daí que o fato de dirigir com apenas uma das mãos e com a atenção voltada para outro foco compromete os reflexos do motorista e pode causar acidentes!  E daí que ele estava dirigindo um veículo de uma empresa de transporte público e não seu próprio carro.

Tudo bem, senhora. Vou encaminhar a reclamação para o setor responsável.

– Quando vocês dão treinamento para seus motoristas, vocês não ensinam as regras de trânsito não?

É…  A gente dá o treinamento sim, mas os motoristas é que são muito ruins. (risos)

– Então contratem gente reponsável. Tem muita gente competente precisando trabalhar e que não vai colocar em risco a vida dos seus clientes.

Tudo bem, senhora. Vou encaminhar sua reclamação.

Tenho quase certeza que ao desligar o telefone ele fez com o dedo médio aquele sinal conhecido mundialmente.

Será que eu estou errada? Será que Odete Roitman está certa, mesmo depois de tantos anos? Será que seremos um povo indolente e passivo até o Apocalipse?

Será que eu corto os pulsos agora ou deixo para amanhã?