Ou: Meu primeiro Natal como comissária de voo

A Belém a qual eu me refiro não é a cidade onde Jesus nasceu. É Belém do Pará mesmo.

Comecei a voar no mês de Dezembro, depois de três meses de curso. Como em aviação antiguidade é posto, eu como “carne nova” nem tive a opção de folgar nas festas de fim de ano.

O primeiro mês de um novo trabalho é sempre estimulante. Ainda mais se o trabalho é viajar pelo Brasil afora conhecendo novos lugares, tendo contato com outras culturas.

Quando peguei minha primeira escala de voo, tudo era novo para mim. Pela programação ali impressa, eu passaria a noite de Natal em Porto Alegre, e no dia 25 de manhã iria a Buenos Aires, Montevideo, novamente Porto Alegre, São Paulo e finalmente Rio, chegando tarde da noite, numa programação que era conhecida como “Conheça a América do Sul em uma tarde”.

Na véspera do meu voo natalino, a programação mudou. Ao invés do sul eu passaria a noite de Natal no norte, em Belém do Pará.

Para mim tudo bem. Quem está na chuva é para se molhar.

Ao me apresentar para o voo, o chefe da equipe de comissários me disse feliz da vida: “A gente se deu bem com a troca da programação! O voo chega de volta no Rio às 10 da manhã do dia 25. Ainda dá pra pegar o almoço de Natal!”

Chegamos em Belém quase meia noite do dia 24. Todo mundo com cara de cachorro sem dono. Bares, restaurantes, tudo fechado. Ir pra balada, afogar as mágoas, encher a cara nem pensar!

Fomos para o hotel e improvisamos uma comemoração no quarto de alguém, não me lembro quem, com algumas latinhas de cerveja e saquinhos de amendoim. “Cortesia” da companhia aérea.

Natal estranho, com gente esquisita.

No dia seguinte pela manhã, já dentro do avião com passageiros embarcados, um barulho estranho em uma das turbinas.

Uma colega mais experiente passa por mim e sinaliza com o polegar para baixo. F#deu!

Mais uma tentativa e o ruído da turbina fica ainda mais estranho. Muito estranho…

Estranhíssimo, pensava eu sentada no jump seat. Ao meu lado outra colega, gaúcha, que tinha planos de pegar o voo para Porto Alegre assim que chegássemos no Rio, começou a chorar. Estava com a mala cheia de presentes para a família, o pai faria um belo de um churrasco.

E eu, pensativa, refletindo sobre o resto dos meus Natais. Seriam todos assim?

E chama-se os mecânicos para ver qual era o problema, e testa o p#rra da turbina de novo. Ainda não foi dessa vez. E mexe daqui, mexe dali, tem que trocar uma peça, mas tem que esperar a peça chegar de Manaus…

Resumindo: Pousamos no Rio às quatro da tarde, seis horas de atraso. Almoço de Natal nem pensar! Só no próximo ano.

Ou não…