Minha geração é maldita. Ou então é amaldiçoada.

Minha geração se mata por descuido, por prazer ou por doideira. A verdade é que não temos grande amor à vida.

É só ver como morreram Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller, Michael Jackson… Isso para citar os mais famosos. Fora meu grande amigo Fábio, que me faz muita falta nossas conversas.

Minha geração morre na praia. Vide a blogueira que vos escreve, que teve seu tapete puxado aos 44 do segundo tempo, viu sua vida profissional ir pelo ralo e ficou no limbo. Ou no vácuo. Muito jovem para se aposentar. Muito velha para o mercado de trabalho formal. E não foi só comigo.

Quando minha geração começou a vida sexual, a AIDS não existia. Era uma  doença misteriosa que matava pessoas que não tinham nada a ver com a gente, em outro mundo, em outra realidade. Como se pegava? Niguém sabia ao certo.  Nossa maior preocupação era evitar gravidez, no caso das mulheres, ou evitar ter que ir à farmácia tomar injeções doloridas, no caso dos homens.

Desfrutávamos tranquilamente a liberdade sexual, legado da geração passada, quando nos pegaram na curva com a tal da AIDS. Éramos ainda muito jovens. Estávamos só namorando, ficando, brincando… E agora? O que estava feito, estava feito. E os que foram infectados? Além de tudo, tinham que aguentar os dedos apontados.  Tempo perdido?

Quando nossa geração começou a fumar, o cigarro era aceito socialmente em todos os lugares. Fumar era chique, era moderno. Nos filmes, nas novelas, todo mundo fumava. E a gente fumava porque queria ser chique e moderno.

Então veio a onda do politicamente correto, e o fumo passou a ser o demônio causador de todos os males, e o fumante passou a ser execrado e discriminado. E agora? Novamente nos apontavam o dedo… Mais tempo perdido?

Até para se drogar nossa geração é fraca. Quando eu vejo hoje dinossauros do rock que se drogaram até a alma, indo para a casa dos setenta inteirões, e vejo a galera mais nova tendo overdose por qualquer coisinha…

Mas a minha vingança, a nossa vingança, é que apesar de todas as maldições, apesar do tempo perdido, nossos ícones permanecem. Depois deles não apareceu mais ninguém.

Quando escuto do meu filho adolescente que ele prefere ouvir Legião Urbana e outras músicas “do meu tempo” porque não tem muita coisa que preste na geração atual. Quando eu percebo que as referências dele e de outros jovens da mesma idade ainda são as da minha geração, vejo que ele tem razão.  A geração de agora não é maldita, mas é careta, engessada e sem imaginação.

Apesar de tudo, apesar dos pesares, conseguimos deixar uma mensagem.

Talvez não tenha sido tempo perdido.