Quem me conhece de longa data sabe que trabalhos domésticos nunca foram o meu forte.

A começar da minha criação. Não fui criada para ser dona de casa, e sim, mulher de carreira. Minha família sempre foi de matriarcado, e tive a sorte de conviver com avó e bisavó até a idade adulta.

Tanto avó quanto bisavó eram feministas antes mesmo de isso se tornar moda.

Minha avó estudou em casa, com uma preceptora. Não frequentou colégios, não se formou em nada. Tinha a maior admiração por mulheres pioneiras em qualquer frente de trabalho.

Certa vez, eu era criança ainda, pegamos um taxi cuja motorista era uma mulher. Se hoje em dia ainda é dificil encontrar taxistas mulheres, naqueles tempos jurássicos era quase impossível!

Minha avó, encantada com o que via, fez uma enxurrada de perguntas a ela que quase não a deixou dirigir, e saiu do carro maravilhada.

Minha bisavó, com mais de oitenta anos, ia votar em todas as eleições. Sempre em candidatas mulheres.

Quando nós falávamos: “Vó, você não precisa mais votar!”, ela contra-argumentava: “Eu sou do tempo em que mulher era como bicho!”

Foram essas feministas que me criaram. Minha avó sempre falava: “Minha filha, estude, tenha uma formação, pois assim você nunca dependerá de homem nenhum.”

E assim foi feito. Estudei, me formei, fui trabalhar e realmente o único homem que já me sustentou foi meu pai.

Ensinar-me tarefas domésticas nunca foi prioridade na minha educação. Ajudou também o fato de sempre termos ótimas empregadas. Não que fôssemos ricos. Longe disso! Mas naquela época a classe média podia pagar uma empregada  tranquilamente. E minha bisavó, com seu grande coração e vocação para ajudar a todos, era muito querida por todas as empregadas. Mesmo as que não trabalhavam mais conosco, traziam seus filhos para ela batizar. Se ela precisava de uma mãozinha, sempre tinha uma disposta a ajudar.

Aprendi a cozinhar vendo as empregadas. Quando fui morar sozinha, apanhei muito até acertar a mão. Mas tenho um certo pendor culinário, então não foi assim tão terrível.

O mesmo não posso dizer em relação às outras tarefas domésticas. Faxinar a casa não é comigo. Passar roupas então….afffffff!!!

Mesmo depois de casada, sempre tive uma secretária do lar para dividir o fardo do trabalho.

Aprendi alguns truques para amenizar a escravidão. A maioria com os americanos.

 Podem falar que o povo americano é isso, é aquilo, e mais aquele outro. Até concordo em parte. Mas vamos combinar que não existe povo mais prático e inventivo em matéria de facilitar serviços domésticos. E para isso eu tiro o meu chapéu!

Meus primeiros lençóis com elástico e iron-free eu trouxe de lá quando aqui no Brasil a coisa estava apenas começando, e nas lojas que tinham ainda eram caríssimos.

Produtos de limpeza milagrosos, que eliminam qualquer craca em segundos, também trazia de lá. Detergentes para lavar louça que não ressecavam as mãos. Minha mala parecia um supermercado! Hoje, graças a Deus existem alguns aqui também.

Amaciantes de roupa super cheirosos, lá tem aos montes. Aqui ainda só tem o Comfort. O resto não presta.

Quem me conhece de longa data sabe também que minha vida sofreu um downgrade. Hoje não posso mais pagar uma secretária para me ajudar. Então eu tento, na medida do possível, dar conta do recado.

Tem dias que eu me revolto. Trabalho de casa não tem fim e nunca é reconhecido (só quando deixa de ser feito). Aí eu saio cuspindo marimbondo para tudo quanto é lado. Sobra para todo mundo.

Tem dias que eu sento e choro. Penso que o mundo é injusto, que eu não fui criada para isso, que roubaram meu futuro promissor de mulher de carreira.

Tem dias que eu agradeço por ainda ter comida para cozinhar, máquina de lavar roupa (obrigada, Senhor!!!) para eu não ter que esfregar e dinheiro para pagar a conta de luz no final do mês.

Até quando eu não sei. Espero uma luz no final do túnel, que não seja um trem vindo a toda velocidade.