Passei mais de vinte anos da minha vida lidando com pessoas. Todos os tipos de pessoas, de todos os tipos de cultura. Trabalhei em ambiente confinado, insalubre, sob stress. Fui comissária de bordo.

Quando escuto gente falando do glamour, da vida boa e das viagens que essa profissão proporciona, dá vontade de rir. Não que não tenha glamour. Tem sim. Mas tem também o lado B, que quase ninguém conhece. O trabalho é braçal, literalmente. É insalubre, é desgastante, é estressante. Não é a toa que muitos colegas enfrentam depressão, síndrome do pânico e outros transtornos.

Apesar de não estar mais voando, fiquei mal ao saber do acidente com o avião da Air France. Pelas minhas contas, já cruzei aquela área do Atlântico mais de mil vezes nesses vinte anos, e não é força de expressão não! Foram mais de mil vezes mesmo.

Sei exatamente em que etapa do voo o acidente ocorreu, e posso imaginar nitidamente o que meus colegas estavam fazendo naquele momento, pois já fiz o mesmo mais de mil vezes. Só peço a Deus (se é que se pode pedir uma coisa dessas) que o horror que eles passaram tenha durado pouco.

Hoje ministro treinamento para pessoas que querem seguir essa carreira. Jovens, cheios de gás, cheios de ilusão. Com meu olho clínico, avalio aqueles que vão conseguir e os que não vão segurar a onda.

Continuo trabalhando com pessoas, apesar de ser um público diferente. Mas eu góstcho! Não por acaso me formei em Psicologia, que é o estudo do comportamento, tanto de seres humanos quanto de animais.

Gosto de alunos questionadores, muito mais do que aqueles que ficam te olhando com cara de nada e parece que você está falando para as paredes.

Mas sei muito bem reconhecer os questionadores curiosos e aqueles que querem puxar o meu tapete.

Um dos meus alunos é uma bichinha esquálida, com a cabeça raspada, que usa um óculos estilo Elton John.

Pausa para explicação politicamente correta: Sempre tive amigos e amigas gays, que eu adoro e admiro. Não tenho nada contra a sexualidade de ninguém. Cada um dá o que é seu. Mas da mesma maneira que chamamos certas mulheres de perua, pelo seu comportamento, ou certos homens de brucutu pelo mesmo motivo, vou chamar a criatura de bichinha porque ele realmente é uma bichinha. E com isso até meus amigos gays concordariam.

Diz ser professor de inglês, mas tem a língua presa e voz fina e fanhosa. Insegura como toda bichinha, resolveu aparecer me usando como escada.

Mal sabe ele que eu já lidei com bichinhas muito mais malditas, muito mais perigosas e muito mais ladinas.

Resolvi tratar a situação como mais um desafio, e consegui contornar o problema sem descer do salto nem perder a paciência, que era tudo o que ele queria.

No final, vendo que não conseguia me tirar do sério, a bichinha resolveu se tornar minha amiga e me tomar como confidente.  Com sua lingua presa e vozinha fanha, me contou sobre sua vida, seus medos, suas inseguranças, etc.  Me senti dentro de um filme de Almodóvar…

Por sorte, a minha parte do treinamento acabou e agora a bichinha vai ter que arrumar outra pessoa para alugar.

Quero só ver se ele vai passar nos exames psicotécnicos, pois se isso acontecer eu rasgo meu diploma.