Hoje meu amigo Fábio faria aniversário. Faria, se há pouco menos de um ano não tivesse achado que a vida não valia mais a pena ser vivida.

Fábio faz parte da minha vida desde os 15 anos. Adolescemos juntos, nos tornamos adultos, fizemos planos, vivemos a vida.

Muito inteligente, ele queria fazer Instituto Rio Branco para ser diplomata. Entrou para a melhor faculdade de Direito sem abrir um livro.

Falava cinco idiomas fluentemente. Fez apenas um semestre da faculdade e desistiu. Se deu conta de que na verdade ele não queria ser diplomata, queria ganhar mundo, viajar.

Fazia amigos com uma facilidade tremenda. Tinha um carisma invejável. Era muito bonito. Impossível não gostar dele e não quere-lo como amigo. Através dessas amizades conseguiu morar um ano na Europa. Voltou ao Brasil, conseguiu um excelente emprego, graças aos idiomas que dominava.

Mas a vontade de ganhar o mundo foi maior do que a vantagem de um emprego muito bem remunerado. Seu objetivo nunca foi juntar dinheiro. Gastava com coisas que lhe davam prazer. Era generoso com os amigos.

Pediu demissão e foi para os Estados Unidos ser imigrante ilegal. Mais uma vez, graças às amizades que ele fazia, conseguiu visto de permanência.

Foi trabalhar numa companhia aérea americana. Tudo o que ele queria. Viajar, conhecer o mundo, conhecer pessoas.

E nós nos encontrávamos em Nova York, Los Angeles, Miami, e também quando ele vinha ao Brasil.

Lembro-me do dia em que nós estávamos no terraço de um prédio, olhando a paisagem, inebriados de felicidade das conquistas que tínhamos feito, e ele grita: “ESTAMOS NO TOPO DO MUNDO!!!”

Mas as coisas mudaram. Talvez ele tenha se dado conta de que ganhar o mundo já não era suficiente, e não tinha mais nada a buscar. A saudade da famíla e dos amigos no Brasil também o incomodava. Segundo o próprio Fábio, pessoas do signo de Touro são muito apegadas à família.

Veio a depressão. Veio a dependência de medicamentos anti-depressivos, ansiolíticos, etc.

Entrou de licença médica e voltou ao Brasil para ficar perto dos entes queridos.

Fez terapias, internações para desentoxicar.

Não melhorou. Os inúmeros amigos foram se afastando, ao se darem conta de que ele não era mais aquele Fábio alegre, de língua afiada, animado e sempre com uma observação inteligente na ponta da língua.

A depressão apagou o carisma. Quando nos falávamos ele dizia: “Você é a única amiga que me restou.”

Da última vez que nos falamos ele disse: “Não se preocupe, eu vou sair dessa. Já sei o que fazer.”

Morte anunciada. Na hora não atinei, ou não quis enxergar o que estava bem diante dos meus olhos. A gente sempre tenta escamotear o que é incômodo de se ver.

No dia seguinte, a notícia de que ele não estava mais entre nós. Saiu da minha vida para entrar na minha história.

Meu querido amigo, que Deus te proteja, te ampare e te ilumine, onde quer que você esteja.

Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar. (Milton Nascimento – Canção da América).