Certa vez um mercador de Bagdá mandou seu servo ao mercado comprar provisões.
Pouco depois, o servo voltou, branco e trêmulo. Disse: “Mestre, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher no meio da multidão e ao me virar vi que fora a Morte quem me empurrara.
 Ela me olhou e fez um gesto ameaçador. Agora me empreste o seu cavalo, vou cavalgar para bem longe desta cidade, a fim de evitar meu destino. Irei a Samarra, lá a Morte certamente não me encontrará”.
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O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguia galopar, se foi.
Então o mercador foi até o mercado, viu a morte em pé no meio da multidão, seguiu até ela e disse: “Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?”
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“Não fiz nenhum gesto ameaçador”, respondeu a morte, “foi uma reação de pura surpresa. Fiquei atônita ao vê-lo, aqui, em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra”.
(Somerset Maugham)

Estou assistindo nesse momento a cerimônia do funeral de Michael Jackson.

Tenho mais o que fazer, mas resolvi me unir ao resto do mundo para dar adeus.

Os americanos tem o costume de enterrar seus mortos dias depois do passamento. Não é como aqui, que a gente enterra, se bobear, no mesmo dia.

Talvez pelo clima tropical os defuntos se decomponham mais rapidamente. Mas agora é verão no hemisfério norte e o costume não muda.

Talvez seja uma maneira sábia das pessoas irem se acostumando aos poucos com a partida do ente querido.

No funeral, sempre alguns amigos ou parentes fazem uma pequena homenagem ao falecido, relembrando alguns bons momentos que passaram juntos.

Se fosse um filme de Almodóvar, certamente nessa hora alguém iria aproveitar para lavar a roupa suja do decujus na frente de todo mundo.

Mas como é um american way of funeral, todos tratam de se comportar muito bem.

Depois do funeral tem a comilança na casa da família. Todos com a cara padrão de enterro: consternados, cabisbaixos, mas mandando ver nos comes e bebes.

Aqui na terrinha, acabou o enterro, vai cada um para sua casa.

Bonita a homenagem a Michael Jackson. Bonito seu caixão. Espero que seu túmulo não seja profanado, pois foi dito que o esquife é folheado a ouro.

Ah, se fosse aqui…

Vou voltar a assistir ao funeral, na  esperança  de que, ao som de Thriller, o caixão se abra e Michael saia dançando, para estupefação de todos.

Seria a maior jogada publicitária de todos os tempos!

Michael Jackson morreu ontem. Parada cardíaca, causas ainda não reveladas.

Eu e ele temos quase a mesma idade. Ele é um pouco mais velho. Podemos dizer que crescemos juntos. Eu, ele e Madonna.

Madonna é um pouco minha referência. Quando a vejo inteirona, saradona e ainda batendo um bolão, penso que eu ainda estou na moda, ainda estou podendo. Tenho fé que ela se tornará um Mick Jagger versão feminina.

Lembro-me de Michael Jackson cantando com os irmãos, no Jackson Five. Um garotinho com voz afinadíssima. Quase da minha idade e fazendo o maior sucesso.

Lembro-me de Ben, a balada romântica que embalou meus sonhos de pré-adolescente. Lembro-me do cabelo estilo black power que eles usavam, também conhecido por aqui como cotonete de orelhão.

Michael Jackson também fez parte dos meus embalos de sábado à noite.

Fiz a coreografia de Don’t Stop Till you get Enough nas minhas aulas de jazz.

 Perdi a conta de quantas vezes eu escutei o album Thriller, e de quantas vezes eu vi o clip, maravilhada.

Até aí, apesar das várias cirurgias plásticas, ele ainda conservava as feições humanas. Depois foi se transformando em “Monstro” Jackson.

Não sei  porque ele fez aquilo consigo mesmo. Não sei como existem médicos que concordam em transformar um ser humano numa aberração por dinheiro, e ainda estão por aí, exercendo a medicina.

Da vida privada dele, sei muito pouco. O casamento com a filha do Elvis Presley, os processos por pedofilia, os filhos. O pai que o espancava e o obrigava a trabalhar.

Michael Jackson levou junto com ele um pedaço da minha infância e da minha adolescência.

Farrah Fawcett, a glamourosa da série As Panteras também morreu ontem, depois de perder a batalha contra o câncer.

Que mulher da minha geração não sonhou em ter o cabelão da Farrah Fawcett?

Quem de nós, pelo menos uma vez na vida, não passou horas na frente do espelho fazendo escova para ver se o cabelo ficava pelo menos parecido?

 Quem nunca pediu ao cabelereiro para fazer um corte “igual ao da Farrah Fawcett”?

 Que atire o primeiro secador de cabelos a quarentona que respondeu NÃO a todas as três perguntas!

Vendo meus ídolos de juventude morrendo assim, por atacado, me vem à mente algo que já escutei de pessoas mais velhas. Que o pior de envelhecer é ver todos os seus amigos e contemporâneos partirem antes de você.

A vida segue, o tempo não para, como dizia Cazuza. Só não envelhece quem morre antes. Se for o meu destino passar por isso, fazer o que?

Não pretendo ir agora. Acho que tenho ainda uma meia dúzia de coisas para realizar neste “vale de lágrimas”.

Mas não pretendo ficar para semente!

Quem me conhece de longa data sabe que trabalhos domésticos nunca foram o meu forte.

A começar da minha criação. Não fui criada para ser dona de casa, e sim, mulher de carreira. Minha família sempre foi de matriarcado, e tive a sorte de conviver com avó e bisavó até a idade adulta.

Tanto avó quanto bisavó eram feministas antes mesmo de isso se tornar moda.

Minha avó estudou em casa, com uma preceptora. Não frequentou colégios, não se formou em nada. Tinha a maior admiração por mulheres pioneiras em qualquer frente de trabalho.

Certa vez, eu era criança ainda, pegamos um taxi cuja motorista era uma mulher. Se hoje em dia ainda é dificil encontrar taxistas mulheres, naqueles tempos jurássicos era quase impossível!

Minha avó, encantada com o que via, fez uma enxurrada de perguntas a ela que quase não a deixou dirigir, e saiu do carro maravilhada.

Minha bisavó, com mais de oitenta anos, ia votar em todas as eleições. Sempre em candidatas mulheres.

Quando nós falávamos: “Vó, você não precisa mais votar!”, ela contra-argumentava: “Eu sou do tempo em que mulher era como bicho!”

Foram essas feministas que me criaram. Minha avó sempre falava: “Minha filha, estude, tenha uma formação, pois assim você nunca dependerá de homem nenhum.”

E assim foi feito. Estudei, me formei, fui trabalhar e realmente o único homem que já me sustentou foi meu pai.

Ensinar-me tarefas domésticas nunca foi prioridade na minha educação. Ajudou também o fato de sempre termos ótimas empregadas. Não que fôssemos ricos. Longe disso! Mas naquela época a classe média podia pagar uma empregada  tranquilamente. E minha bisavó, com seu grande coração e vocação para ajudar a todos, era muito querida por todas as empregadas. Mesmo as que não trabalhavam mais conosco, traziam seus filhos para ela batizar. Se ela precisava de uma mãozinha, sempre tinha uma disposta a ajudar.

Aprendi a cozinhar vendo as empregadas. Quando fui morar sozinha, apanhei muito até acertar a mão. Mas tenho um certo pendor culinário, então não foi assim tão terrível.

O mesmo não posso dizer em relação às outras tarefas domésticas. Faxinar a casa não é comigo. Passar roupas então….afffffff!!!

Mesmo depois de casada, sempre tive uma secretária do lar para dividir o fardo do trabalho.

Aprendi alguns truques para amenizar a escravidão. A maioria com os americanos.

 Podem falar que o povo americano é isso, é aquilo, e mais aquele outro. Até concordo em parte. Mas vamos combinar que não existe povo mais prático e inventivo em matéria de facilitar serviços domésticos. E para isso eu tiro o meu chapéu!

Meus primeiros lençóis com elástico e iron-free eu trouxe de lá quando aqui no Brasil a coisa estava apenas começando, e nas lojas que tinham ainda eram caríssimos.

Produtos de limpeza milagrosos, que eliminam qualquer craca em segundos, também trazia de lá. Detergentes para lavar louça que não ressecavam as mãos. Minha mala parecia um supermercado! Hoje, graças a Deus existem alguns aqui também.

Amaciantes de roupa super cheirosos, lá tem aos montes. Aqui ainda só tem o Comfort. O resto não presta.

Quem me conhece de longa data sabe também que minha vida sofreu um downgrade. Hoje não posso mais pagar uma secretária para me ajudar. Então eu tento, na medida do possível, dar conta do recado.

Tem dias que eu me revolto. Trabalho de casa não tem fim e nunca é reconhecido (só quando deixa de ser feito). Aí eu saio cuspindo marimbondo para tudo quanto é lado. Sobra para todo mundo.

Tem dias que eu sento e choro. Penso que o mundo é injusto, que eu não fui criada para isso, que roubaram meu futuro promissor de mulher de carreira.

Tem dias que eu agradeço por ainda ter comida para cozinhar, máquina de lavar roupa (obrigada, Senhor!!!) para eu não ter que esfregar e dinheiro para pagar a conta de luz no final do mês.

Até quando eu não sei. Espero uma luz no final do túnel, que não seja um trem vindo a toda velocidade.

Passei mais de vinte anos da minha vida lidando com pessoas. Todos os tipos de pessoas, de todos os tipos de cultura. Trabalhei em ambiente confinado, insalubre, sob stress. Fui comissária de bordo.

Quando escuto gente falando do glamour, da vida boa e das viagens que essa profissão proporciona, dá vontade de rir. Não que não tenha glamour. Tem sim. Mas tem também o lado B, que quase ninguém conhece. O trabalho é braçal, literalmente. É insalubre, é desgastante, é estressante. Não é a toa que muitos colegas enfrentam depressão, síndrome do pânico e outros transtornos.

Apesar de não estar mais voando, fiquei mal ao saber do acidente com o avião da Air France. Pelas minhas contas, já cruzei aquela área do Atlântico mais de mil vezes nesses vinte anos, e não é força de expressão não! Foram mais de mil vezes mesmo.

Sei exatamente em que etapa do voo o acidente ocorreu, e posso imaginar nitidamente o que meus colegas estavam fazendo naquele momento, pois já fiz o mesmo mais de mil vezes. Só peço a Deus (se é que se pode pedir uma coisa dessas) que o horror que eles passaram tenha durado pouco.

Hoje ministro treinamento para pessoas que querem seguir essa carreira. Jovens, cheios de gás, cheios de ilusão. Com meu olho clínico, avalio aqueles que vão conseguir e os que não vão segurar a onda.

Continuo trabalhando com pessoas, apesar de ser um público diferente. Mas eu góstcho! Não por acaso me formei em Psicologia, que é o estudo do comportamento, tanto de seres humanos quanto de animais.

Gosto de alunos questionadores, muito mais do que aqueles que ficam te olhando com cara de nada e parece que você está falando para as paredes.

Mas sei muito bem reconhecer os questionadores curiosos e aqueles que querem puxar o meu tapete.

Um dos meus alunos é uma bichinha esquálida, com a cabeça raspada, que usa um óculos estilo Elton John.

Pausa para explicação politicamente correta: Sempre tive amigos e amigas gays, que eu adoro e admiro. Não tenho nada contra a sexualidade de ninguém. Cada um dá o que é seu. Mas da mesma maneira que chamamos certas mulheres de perua, pelo seu comportamento, ou certos homens de brucutu pelo mesmo motivo, vou chamar a criatura de bichinha porque ele realmente é uma bichinha. E com isso até meus amigos gays concordariam.

Diz ser professor de inglês, mas tem a língua presa e voz fina e fanhosa. Insegura como toda bichinha, resolveu aparecer me usando como escada.

Mal sabe ele que eu já lidei com bichinhas muito mais malditas, muito mais perigosas e muito mais ladinas.

Resolvi tratar a situação como mais um desafio, e consegui contornar o problema sem descer do salto nem perder a paciência, que era tudo o que ele queria.

No final, vendo que não conseguia me tirar do sério, a bichinha resolveu se tornar minha amiga e me tomar como confidente.  Com sua lingua presa e vozinha fanha, me contou sobre sua vida, seus medos, suas inseguranças, etc.  Me senti dentro de um filme de Almodóvar…

Por sorte, a minha parte do treinamento acabou e agora a bichinha vai ter que arrumar outra pessoa para alugar.

Quero só ver se ele vai passar nos exames psicotécnicos, pois se isso acontecer eu rasgo meu diploma.

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