Sebastiana foi empregada lá em casa por muitos anos. Como toda empregada que fica na família por muito tempo, ela era considerada como membro da família, e agia como tal na defesa de nossos interesses.

Quando eu tinha uns vinte anos, tive um namorado que a princípio era um cara inteligente, culto e divertido. Fazia faculdade com meu irmão e eram amigos, e daí começou nosso namoro. Mas com o passar do tempo revelou seu verdadeiro “eu”. Um mala sem alça, irresponsável, filhinho de papai e grudento. Namoramos por alguns meses, terminamos e voltamos algumas vezes.

Ele estava sempre na nossa casa, almoçava lá constantemente e fazia suas exigências. O prato principal era frango? Será que a Sebastiana podia fritar um bife para ele? Não tinha bife? Dava para ser um ovo frito?

Comia feito uma draga, talvez porque as refeições na casa dele fossem sempre racionadas. Lá era um bifinho para cada um, com uma colherzinha de arroz e olhe lá!

Tirava a barriga da miséria e depois reclamava que o tempero da Sebastiana era muito forte, que ela carregava na pimenta (o que não era verdade porque não gostamos de pimenta), e isso fazia mal ao seu estômago sensível…

Desnecessário dizer que Sebastiana, como todo profissional quando é criticado injustamente, não nutria nenhuma simpatia pela criatura. Achava-o folgado e abusado. Escamoteava os ovos dentro da geladeira para evitar pedidos de ovo frito ou omelete. Fazia caras e bocas para demonstrar seus sentimentos em relação a ele.

Quando terminamos definitivamente, ele resolveu aparecer lá em casa em horários em que não era esperado, a seu bel-prazer. Se não tinha ninguém em casa, ele, na cara dura, abria a geladeira e procurava o que comer, provocando a ira da Sebastiana.

E como sabia os meus horários, ficava por lá até eu chegar, valendo-se da amizade com meu irmão como desculpa. Só que ficava era no meu pé, querendo controlar minha vida, querendo saber se eu ia sair, e com quem, ou se já tinha outro na parada.

Era um saco! Às vezes no final de semana eu estava em casa com amigos e o Encosto aparecia para marcar território, causando constrangimento. Como eu não queria armar barraco na frente de pessoas que não tinham nada a ver com isso, era obrigada a engolir sua presença. Não adiantava eu conversar com ele civilizadamente e pedir para ele não aparecer mais sem avisar. Entrava por um ouvido e saía pelo outro.

Um belo dia, ele simplesmente sumiu. Não aparecia mais, nem mesmo telefonava. Com alívio e desconfiança, comentei com Sebastiana sobre esse “milagre”.

A princípio ela não disse nada, mas passado um tempo ela confessou que tinha jogado pó de sumiço no rastro dele numa das vezes em que ele apareceu de surpresa e não tinha ninguém em casa.

Maravilhada, perguntei a ela como era esse pó, onde se conseguia, etc. (para uma futura eventualidade).

Ela, muito evasiva, só disse que conseguiu com um pai-de-santo vizinho dela. E que era tiro e queda!

Não consegui arrancar mais nada.

Perdi contato com ela com o passar dos anos. Uma pena, pois precisei desse pozinho milagroso por várias vezes, não para namorados, mas para certas pessoas que se diziam “amigas” e na verdade eram verdadeiros sanguessugas.

Se alguém souber a receita do pó de sumiço, ou onde conseguir, por favor me avise.

 

Mais informações no post: Sobre o pó de sumiço

 

 

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